CEV Vestibulares

Blog

Dá para discutir política com marchinhas de carnaval?

Nem mesmo em tempos de festa, alegria e descontração o Politize! perde a oportunidade de fazer refletir sobre política. Daquele pressuposto de que se pode aprender sobre política de forma descomplicada e descontraída, vamos sugerir 5 marchinhas de carnaval que podem servir de pano de fundo para debater temas que estão por aí.

 

MARCHINHA 1: “Ô ABRE ALAS DE CHIQUINHA GONZAGA (1899)

A letra da marchinha em si não traz algum tema político que possa ser debatido. A ideia de utilizá-la como ponto de partida está na sua importância histórica para debater temas relacionados à inserção e o papel das mulheres no mercado de trabalho e na sociedade. A marchinha – considerada a primeira marcha carnavalesca – foi composta pela musicista Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, uma mulher que em pleno século XIX ousou lutar pelos seus sonhos e ideais. Separou-se duas vezes, trabalhou para criar um filho sozinha, levou adiante uma relação com um rapaz 36 anos mais jovem, engajou-se politicamente na luta pela abolição da escravatura e pelo fim da monarquia… Ações relativamente corriqueiras nos dias de hoje, mas abomináveis naqueles tempos. O dia 17/10 – data de seu nascimento – foi instituído como o Dia Nacional da Música Popular Brasileira por meio da Lei 12.624/2012. Chiquinha Gonzaga faleceu no Rio de Janeiro, no início do carnaval de 1935, aos 87 anos.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

  

MARCHINHA 2: DAQUI NÃO SAIO DE PAQUITO E ROMEU GENTIL (1949)

A marchinha do final da década de 1940 retrata de forma bem humorada um problema que continua atual: o acesso à moradia. Embora a última PNAD contínua (com dados de 2016, divulgada em 2017), pesquisa de abrangência nacional do IBGE, aponte que quase 70% dos domicílios brasileiros são casas próprias já quitadas, não se pode afirmar que não haja um déficit habitacional no país, pois a pesquisa questiona ao entrevistado a condição de sua residência, que pode ser de algum dos integrantes do domicílio e não da pessoa que participou da pesquisa.

Há que se considerar, ainda, as condições desses domicílios. Nesse sentido, podem-se discutir a partir da marchinha, as políticas para redução desse déficit, bem como sua efetividade. O Programa Minha Casa Minha Vida lançado em 2009 pelo governo federal, por exemplo, se deu um lado possibilitou acesso à moradia, de outro recebeu críticas por não dar condições de infraestrutura e acesso das famílias aos serviços públicos. Isto porque comumente os conjuntos habitacionais foram construídos em terrenos doados pelas prefeituras em locais longínquos, com dificuldade de acesso ao transporte público, por exemplo.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

 

MARCHINHA 3: MARIA SAPATÃO DE JOÃO ROBERTO KELLY (1981)

Essa marchinha foi encomendada pelo apresentador Chacrinha, que teria dito ao compositor “Vamos fazer algo engraçado porque tem um bocado de sapatão!”. Embora para muitos hoje soe como politicamente incorreto, pois o termo “sapatão” é considerado por muitos pejorativo, a letra em si não segue esse tom. O próprio compositor usando um trecho da música “O sapatão está na moda/ O mundo aplaudiu/É um barato, é um sucesso/Dentro e fora do Brasil” afirma que a marchinha não busca ofender ninguém. Comentando sobre essa e outras marchinhas que também são de sua autoria, ele se diz contra a censura. Nesse sentido, pode-se utilizá-la como norte para se discutir gênero, preconceito, homofobia e temas correlatos.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

 

MARCHINHA 4: BOTA CAMISINHA DE JOÃO ROBERTO KELLY E LELECO (1987?)

Embora não tenhamos encontrado uma fonte confiável sobre a data exata de lançamento da marchinha, tudo indica que tenha sido lançada no final dos anos 1980, quando a epidemia de AIDS começava a se alastrar ao redor do mundo, incluindo o Brasil, e uma campanha para o uso do preservativo – apelidado de “camisinha” – começou a ser incentivado.

O apresentador Chacrinha, a quem fizemos menção na marchinha anterior, novamente entra em cena. Tendo sido considerado um dos maiores comunicadores do país, em função do sucesso de seus programas de auditório em rádio e de TV, o “velho guerreiro” – como também era conhecido – cantava a marchinha no programa “Cassino do Chacrinha” que mantinha nas tardes de sábado na Rede Globo. Em função da grande popularidade do programa, Chacrinha ajudou a disseminar a importância do uso do preservativo para “não se machucar no carnaval”.

A prevenção contra a AIDS e o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, embora remonte à década de 1980, continua pertinente ainda hoje. O Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS apresentado pelo Ministério da Saúde em dezembro de 2017 indicou uma redução de 5% na taxa de detecção de AIDS no país na comparação de 2016 em relação a 2015.

Porém, o mesmo Boletim indica o perfil do infectado entre 2006 e 2016: enquanto a taxa de contágio entre as mulheres caiu, a dos homens aumentou. A doença cresce entre homens que fazem sexo com homens, mudando o perfil nesta década, já que a proporção era maior entre heterossexuais. O Boletim destaca ainda o crescimento de infecções de HIV e AIDS entre jovens de 15 a 19 anos, sendo que a taxa masculina desse grupo quase triplicou no período. Entre as meninas, também houve crescimento, mas em menor proporção e idosas acima de 60 anos também tiveram alta na contaminação. Segundo o Boletim, mais de 800 mil pessoas vivem com HIV no Brasil atualmente.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

  • Doenças sexualmente transmissíveis;
  • Políticas públicas para doenças sexualmente transmissíveis;
  • Educação sexual.

MARCHINHA 5: NÃO EXISTE PECADO AO SUL DO EQUADOR DE CHICO BUARQUE E RUY GUERRA (1973)

Essa marchinha foi escrita para integrar a trilha da peça Calabar: o elogio da traição, de autoria dos mesmos compositores da canção. De acordo com Natália Pesciotta do blog Atrás da música, “o espetáculo teatral era sobre Domingos Fernandes Calabar, um senhor de engenho pernambucano que traiu os colonizadores portugueses e passou para o lado dos invasores holandeses”. Tal evento aconteceu no século XVII, “quando a ideia que se fazia do Brasil era essa, para o bem ou para o mal: um lugar livre da ‘moral’ e ‘bons costumes’”. Na postagem que faz no blog, a autora chama a atenção para o fato de que a principal frase da música, que também dá título a ela “Não existe pecado ao Sul do Equador” foi escrita no século XVII e que Chico a encontrou no livro Raízes do Brasil escrita por seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda.

A frase remetia à ideia de que a linha que divide o mundo em dois hemisférios parecia também dividir a virtude (hemisfério Norte – Velho Mundo) do vício (hemisfério Sul – Novo Mundo). Assim, o “lado de baixo do Equador” representaria uma terra de ninguém, onde tudo se podia, nada era proibido. Nesse sentido, a partir da marchinha, sugere-se debater, por exemplo, as origens desse nosso descrédito em relação às leis e às instituições no país.

Pesquisa da FGV para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que mais de 80% dos 7.176  entrevistados declarou concordar que “é fácil desobedecer à lei no Brasil” e que o cidadão brasileiro, sempre que possível, opta pelo “jeitinho” em vez de obedecer à lei. Ou seja, a grande maioria dos brasileiros entende que a lei pode ser facilmente ignorada e que esse comportamento é generalizado. Será que o Brasil está fadado a ser a terra do “tudo pode”? Do “não vai dar nada”? Do “dá um jeitinho”?

 

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

 

Nem mesmo em tempos de festa, alegria e descontração o Politize! perde a oportunidade de fazer refletir sobre política. Daquele pressuposto de que se pode aprender sobre política de forma descomplicada e descontraída, vamos sugerir 5 marchinhas de carnaval que podem servir de pano de fundo para debater temas que estão por aí.

 

MARCHINHA 1: “Ô ABRE ALAS” DE CHIQUINHA GONZAGA (1899)

A letra da marchinha em si não traz algum tema político que possa ser debatido. A ideia de utilizá-la como ponto de partida está na sua importância histórica para debater temas relacionados à inserção e o papel das mulheres no mercado de trabalho e na sociedade. A marchinha – considerada a primeira marcha carnavalesca – foi composta pela musicista Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, uma mulher que em pleno século XIX ousou lutar pelos seus sonhos e ideais. Separou-se duas vezes, trabalhou para criar um filho sozinha, levou adiante uma relação com um rapaz 36 anos mais jovem, engajou-se politicamente na luta pela abolição da escravatura e pelo fim da monarquia… Ações relativamente corriqueiras nos dias de hoje, mas abomináveis naqueles tempos. O dia 17/10 – data de seu nascimento – foi instituído como o Dia Nacional da Música Popular Brasileira por meio da Lei 12.624/2012. Chiquinha Gonzaga faleceu no Rio de Janeiro, no início do carnaval de 1935, aos 87 anos.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

 

 

MARCHINHA 2: “DAQUI NÃO SAIO” DE PAQUITO E ROMEU GENTIL (1949)

A marchinha do final da década de 1940 retrata de forma bem humorada um problema que continua atual: o acesso à moradia. Embora a última PNAD contínua (com dados de 2016, divulgada em 2017), pesquisa de abrangência nacional do IBGE, aponte que quase 70% dos domicílios brasileiros são casas próprias já quitadas, não se pode afirmar que não haja um déficit habitacional no país, pois a pesquisa questiona ao entrevistado a condição de sua residência, que pode ser de algum dos integrantes do domicílio e não da pessoa que participou da pesquisa.

Há que se considerar, ainda, as condições desses domicílios. Nesse sentido, podem-se discutir a partir da marchinha, as políticas para redução desse déficit, bem como sua efetividade. O Programa Minha Casa Minha Vida lançado em 2009 pelo governo federal, por exemplo, se deu um lado possibilitou acesso à moradia, de outro recebeu críticas por não dar condições de infraestrutura e acesso das famílias aos serviços públicos. Isto porque comumente os conjuntos habitacionais foram construídos em terrenos doados pelas prefeituras em locais longínquos, com dificuldade de acesso ao transporte público, por exemplo.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

 

MARCHINHA 3: “MARIA SAPATÃO” DE JOÃO ROBERTO KELLY (1981)

Essa marchinha foi encomendada pelo apresentador Chacrinha, que teria dito ao compositor “Vamos fazer algo engraçado porque tem um bocado de sapatão!”. Embora para muitos hoje soe como politicamente incorreto, pois o termo “sapatão” é considerado por muitos pejorativo, a letra em si não segue esse tom. O próprio compositor usando um trecho da música “O sapatão está na moda/ O mundo aplaudiu/É um barato, é um sucesso/Dentro e fora do Brasil” afirma que a marchinha não busca ofender ninguém. Comentando sobre essa e outras marchinhas que também são de sua autoria, ele se diz contra a censura. Nesse sentido, pode-se utilizá-la como norte para se discutir gênero, preconceito, homofobia e temas correlatos.

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

 

MARCHINHA 4: “BOTA CAMISINHA” DE JOÃO ROBERTO KELLY E LELECO (1987?)

Embora não tenhamos encontrado uma fonte confiável sobre a data exata de lançamento da marchinha, tudo indica que tenha sido lançada no final dos anos 1980, quando a epidemia de AIDS começava a se alastrar ao redor do mundo, incluindo o Brasil, e uma campanha para o uso do preservativo – apelidado de “camisinha” – começou a ser incentivado.

O apresentador Chacrinha, a quem fizemos menção na marchinha anterior, novamente entra em cena. Tendo sido considerado um dos maiores comunicadores do país, em função do sucesso de seus programas de auditório em rádio e de TV, o “velho guerreiro” – como também era conhecido – cantava a marchinha no programa “Cassino do Chacrinha” que mantinha nas tardes de sábado na Rede Globo. Em função da grande popularidade do programa, Chacrinha ajudou a disseminar a importância do uso do preservativo para “não se machucar no carnaval”.

A prevenção contra a AIDS e o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, embora remonte à década de 1980, continua pertinente ainda hoje. O Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS apresentado pelo Ministério da Saúde em dezembro de 2017 indicou uma redução de 5% na taxa de detecção de AIDS no país na comparação de 2016 em relação a 2015.

Porém, o mesmo Boletim indica o perfil do infectado entre 2006 e 2016: enquanto a taxa de contágio entre as mulheres caiu, a dos homens aumentou. A doença cresce entre homens que fazem sexo com homens, mudando o perfil nesta década, já que a proporção era maior entre heterossexuais. O Boletim destaca ainda o crescimento de infecções de HIV e AIDS entre jovens de 15 a 19 anos, sendo que a taxa masculina desse grupo quase triplicou no período. Entre as meninas, também houve crescimento, mas em menor proporção e idosas acima de 60 anos também tiveram alta na contaminação. Segundo o Boletim, mais de 800 mil pessoas vivem com HIV no Brasil atualmente.

 

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

  • Doenças sexualmente transmissíveis;
  • Políticas públicas para doenças sexualmente transmissíveis;
  • Educação sexual.

MARCHINHA 5: “NÃO EXISTE PECADO AO SUL DO EQUADOR” DE CHICO BUARQUE E RUY GUERRA (1973)

Essa marchinha foi escrita para integrar a trilha da peça Calabar: o elogio da traição, de autoria dos mesmos compositores da canção. De acordo com Natália Pesciotta do blog Atrás da música, “o espetáculo teatral era sobre Domingos Fernandes Calabar, um senhor de engenho pernambucano que traiu os colonizadores portugueses e passou para o lado dos invasores holandeses”. Tal evento aconteceu no século XVII, “quando a ideia que se fazia do Brasil era essa, para o bem ou para o mal: um lugar livre da ‘moral’ e ‘bons costumes’”. Na postagem que faz no blog, a autora chama a atenção para o fato de que a principal frase da música, que também dá título a ela “Não existe pecado ao Sul do Equador” foi escrita no século XVII e que Chico a encontrou no livro Raízes do Brasil escrita por seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda.

A frase remetia à ideia de que a linha que divide o mundo em dois hemisférios parecia também dividir a virtude (hemisfério Norte – Velho Mundo) do vício (hemisfério Sul – Novo Mundo). Assim, o “lado de baixo do Equador” representaria uma terra de ninguém, onde tudo se podia, nada era proibido. Nesse sentido, a partir da marchinha, sugere-se debater, por exemplo, as origens desse nosso descrédito em relação às leis e às instituições no país.

Pesquisa da FGV para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que mais de 80% dos 7.176  entrevistados declarou concordar que “é fácil desobedecer à lei no Brasil” e que o cidadão brasileiro, sempre que possível, opta pelo “jeitinho” em vez de obedecer à lei. Ou seja, a grande maioria dos brasileiros entende que a lei pode ser facilmente ignorada e que esse comportamento é generalizado. Será que o Brasil está fadado a ser a terra do “tudo pode”? Do “não vai dar nada”? Do “dá um jeitinho”?

Sugestões de temas que podem ser debatidos a partir da marchinha:

 FONTE: Guia do Estudante